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    São Paulo - 23/05/2023    06:08hs

CBF reduz número de árbitros escalados na Série A; medida traz preocupação para a ANAF

Redução aperta escala e intervalos entre partidas; risco de lesão é fator agravante para categoria, que recebe por jogo trabalhado

ANAF relata preocupação com o baixo desempenho dos profissionais na Série A — Foto: arte
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Em um mês de Campeonato Brasileiro da Série A e com 60 jogos disputados, depois de seis rodadas, a CBF escalou apenas 17 árbitros centrais. A repetição de profissionais e o volume de partidas vêm provocando questionamentos sobre a qualidade e o desempenho dos profissionais.

O número de árbitros escalados no Brasileirão está diminuindo ano a ano. Em 2020, 33 centrais foram utilizados nas primeiras seis rodadas. Em 2021, foram 30. Em 2022, quando Wilson Seneme se tornou presidente da comissão de arbitragem da CBF, o número caiu para 20.

A Associação Nacional de Árbitros de Futebol (ANAF) relata preocupação e fala em "privilegiados" da comissão de arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol.

"Nesse ano, infelizmente, piorou a concentração de escalas da Série A em poucos profissionais, tanto em campo, como no VAR. A consequência disso é extremamente nefasta ao futebol brasileiro, pois impede a renovação da nossa arbitragem. A distribuição das escalas, nas seis primeiras rodadas, evidenciam que a Comissão Nacional de Arbitragem tem trabalhado apenas a favor de um seleto grupo de árbitros e assistentes, sem critérios e transparência do porquê disso, em detrimento da maioria dos profissionais do quadro de árbitros da CBF.



Para a sétima rodada, quatro árbitros vão atuar pela primeira vez na série A deste ano, totalizando 21 árbitros centrais no campeonato (até o momento). No ano passado, 20 profissionais foram usados no mesmo número de rodadas.

O número de competições e jogos não diminuiu, mas os nomes na escala de arbitragem foram sendo reduzidos a um grupo de árbitros mais experientes.

"Eu sou favorável a um número menor de árbitros na Série A devido ao grau de dificuldade, de competitividade. Entendo que, para um campeonato como a Série A, você trabalhar com um grupo de 25 árbitros é adequado, mas o árbitro precisa ter bom senso de estar sempre em contato com a comissão para comunicar um eventual desgaste, uma eventual lesão, para não apitar machucado" - ponderou Paulo César de Oliveira, comentarista de arbitragem da Globo.

Nomes conhecidos, como Jean Pierre Gonçalves Lima, Marcelo de Lima Henrique e Leandro Vuaden ainda não figuraram entre os árbitros centrais da Série A, por exemplo.

"Hoje você já tem um grupo bem definido em relação aos que atuam na Série A. Tem até alguns novos que estão apitando na Série A pela primeira vez. Se levar em consideração o tamanho do nosso país e a grandeza do Campeonato Brasileiro, as federações não conseguem formar uma quantidade ideal de árbitros preparados para a Primeira Divisão" - acrescentou Paulo César.

Os 17 árbitros mais escalados na elite também atuam em outras competições. Apitam na Série B, Copa do Brasil e, em alguns casos, na Libertadores e Sul-Americana.

Anderson Daronco, por exemplo, fez dois jogos na Colômbia em três dias. Em 02 de maio, foi árbitro central em Atlético Nacional x Olimpia (na Colômbia), pela Libertadores. Em menos de 48 horas depois, esteve como quarto árbitro, também pela competição internacional, na partida entre Deportivo Pereira e Monagas.

Anderson Daronco teve cerca de 48h de intervalo entre dois jogos em que atuou pela Libertadores — Foto: Alexandre Durão

Ramon Abatti foi o quarto árbitro do primeiro jogo e inverteu o papel com o Daronco na segunda partida, com o mesmo tempo de descanso. Para Salmo Valentim, presidente da ANAF, se a qualidade dos demais árbitros disponíveis é ruim, a CBF precisa trabalhar com urgência para captar profissionais que atendam os critérios da comissão.

"Nos causa preocupação ao ver que apenas cerca de 10% do quadro de árbitros da CBF recebe oportunidades na Série A. Será que só esse pequeno grupo tem condições de atuar na elite do futebol brasileiro? Se a resposta for sim, é preciso que os demais integrantes do quadro nacional entreguem seus escudos imediatamente, e a CBF inicie um trabalho emergencial de formação de novos árbitros e assistentes".

As viagens excessivas e jogos de alta complexidade podem afetar a qualidade do trabalho. PC de Oliveira acredita que cabe também à comissão de arbitragem organizar melhor as escalas e pensar no desgaste para evitar erros e problemas em jogos.

"O que pode fazer para minimizar é, entre uma escala e outra que ele não estiver sendo aproveitado na Série A, ver se tem a necessidade de escalar na Série B. Talvez possa dar uma segurada na Série B, até porque os principais árbitros estão saindo para fazer jogos da Libertadores. Se tem a possibilidade desse intervalo, o árbitro pode descansar, analisar melhor suas atuações. Fazer o trabalho de autoanalise. Esse descanso da Série B pode minimizar os problemas" - disse o comentarista.



Procurada pela reportagem, a CBF ainda não se manifestou.

Árbitros escalados x polêmicas

O árbitro mais escalado foi Wilton Pereira Sampaio, presente em todas as rodadas disputadas da Série A do Brasileirão de 2023. Neste fim de semana, ele está designado para a Série B: Criciúma x Ceará, no domingo. Outros seis profissionais atuaram em cinco partidas da elite e em, pelo menos, um jogo da Série B.

Wilton Pereira Sampaio revisa cabine do VAR durante Inglaterra x França — Foto: Jewel SAMAD / AFP

O intervalo médio de descanso dos árbitros, entre um jogo e outro, está em torno de 66 horas, mas há casos em que o tempo entre as partidas é menor.

Foi o caso de Paulo César Zanovelli. Em 11 de maio, uma quinta-feira, esteve em Fortaleza e São Paulo, pelo Brasileiro. No sábado, dia 13, estava em Salvador para apitar Bahia e Flamengo.

Zanovelli teve 42 horas entre o fim da partida de quinta e o início do jogo de sábado. Nesse período, ele se deslocou por cerca de 1.700km, da capital cearense até a Bahia. De acordo com a Lei Pelé, um atleta, por exemplo, precisa descansar, no mínimo, 66 horas.

Paulo César Zanovelli em Bahia x Flamengo, na Arena Fonte Nova — Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

Nas duas partidas, lances polêmicos geraram protesto. No jogo de quinta, o São Paulo questiona a expulsão de Rodrigo Nestor, contra o Fortaleza. No lance, Nestor disputa bola com Titi. O árbitro entendeu que o jogador são-paulino acertou o rosto do adversário, aplicando o amarelo (era o segundo) e, consequentemente, o vermelho (veja o lance).

Na partida de sábado, mais uma expulsão foi questionada. Zanovelli expulsou Kanu, do Bahia, após disputa de bola com Gabigol, do Flamengo. De acordo com a súmula, Kanu recebeu o segundo amarelo e, consequentemente, o vermelho, por “golpear seu adversário com o movimento adicional na região do peito de maneira temerária” (veja o lance).

Paulo César Zanovelli atuou em cinco das seis rodadas da Série A do Campeonato Brasileiro e um jogo na Série B. Foram cinco estados diferentes em um mês de competição (São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Fortaleza e Bahia). Neste sábado, ele será assistente de VAR 2 no clássico entre Botafogo x Fluminense.

O desgaste físico e psicológico pode afetar a qualidade do profissional em campo, opina o comentarista de arbitragem da Globo. Com jogos a cada três dias e viagens longas, o árbitro tem pouco tempo para descanso.

"Pode (afetar o desempenho do árbitro), sem dúvida que pode. Os jogos estão sendo disputados em um ritmo cada vez mais alto, mais impactante. A gente percebe uma mudança na questão física e tática. Os nossos jogos estão cada vez mais movimentados e com mais disputas. Então, o desgaste não é só físico, mas tem o psicológico" - afirmou PC de Oliveira.

O presidente da ANAF afirma que os árbitros estão sendo prejudicados pelo alto número de jogos e que o desgaste é inevitável.

"Lógico que sim (atrapalha o desempenho). Não só pelo volume de jogos em sequência, como pelos deslocamentos entre os estados. Some-se a isso o fato de que a maioria dos árbitros e assistentes ainda precisa trabalhar, uma vez que a profissão no futebol não foi regulamentada e não garante a eles as devidas condições para sustentar suas famílias".

Salmo Valentim - Presidente da ANAF - Crédito: Marçal

Mais jogos, mais taxas

O árbitro não tem remuneração fixa, ou seja, só recebe quando atua. Um árbitro Fifa recebe por trabalhar um jogo do Brasileirão, em média, R$ 6,5 mil. O volume de jogos do início da temporada gera uma rentabilidade maior aos árbitros.

Wilton Pereira Sampaio atuou em todas as seis primeiras rodadas da Série A 2023 — Foto: Cesar Greco/Palmeiras

Com o decorrer do ano, lesões, pausas para reciclagem e falta de demanda (com o encerramento de competições) fazem com que os profissionais diminuam a frequência com que vão a campo.

"Falta personalidade dos árbitros para gerirem suas carreiras. Eles querem as escalas. Isso, em algum momento, vai pesar com certeza. E o psicológico, o emocional, acaba influenciando na parte técnica e tática da arbitragem. São seres humanos, falíveis, e que, em algum momento, vão estourar" - analisou Márcio Rezende de Freitas, ex-árbitro, em comentário feito na Rádio Itatiaia.

A arbitragem é, na maioria dos casos, uma função secundária. Mas quando o profissional chega à elite do futebol, o árbitro precisa de tempo e isso pode causar acumulo de escalas para conseguir a renda necessária visando as fases de poucos jogos.

"Acredito que isso poderia ser solucionado com a profissionalização da arbitragem, com remuneração fixa, assistência na preparação física, técnica, psicológica e nutricional. Dessa forma o árbitro poderia ser dar o direito de pedir uma dispensa porque já contaria essas garantia. Enquanto não tiver vínculo com as instituições, como profissionalização, vai continuar esse sistema de repetição de escalas e de acúmulos de jogos". - concluiu PC de Oliveira.

As informações são do GE/Belo Horizonte

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