Entrevista

 

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Carlos Simon lamenta não ter apitado final de Copa: "Questões a par da arbitragem"

Em entrevista, o ex-árbitro define sua carreira como bonita e vitoriosa e pede o fim do sorteio de arbitragem

12/12/2011 - Fora dos gramados a quase um ano, após atingir a idade limite (45) para um árbitro de futebol, Carlos Eugênio Simon divide seu tempo de uma maneira diferente da dos últimos 27 anos dedicados ao esporte mais popular do mundo. Entre homenagens no Rio Grande do Sul, seu estado natal, e jogos beneficentes, Simon separou alguns minutos para conversar, com a reportagem do globoesporte.comdurante um evento, no último domingo, no Centro de Futebol do Zico, quando apitou a final masculina da Copa Coca-Cola, um campeonato de adolescentes entre 13 e 15 anos de escolinhas de todo Brasil.

Entre uma foto e um autógrafo com os pequenos torcedores que participavam do evento, o ex-árbitro, considerado um dos melhores de toda história do país, definiu sua carreira, de 1.197 jogos arbitrados, como bonita e vitoriosa. O gaúcho de Braga destacou como fatos marcantes, as três Copas do Mundo (Coréia e Japão, em 2002, Alemanha, em 2006 e África do Sul, em 2010) em
que participou, os 20 clássicos entre Grêmio e Internacional e o seu jogo de despedida no Engenhão, na última rodada do Brasileiro de 2010. Em meio a tantos números positivos, a decepção fica por conta de não ter comandado uma decisão do torneio de futebol mais importante do mundo.

Confira, na íntegra, a entrevista com o ex-árbitro, de 46 anos, formado em Jornalismo e pós-graduado em Ciência da Saúde e do Esporte pela PUC-RS.

Como está sendo esse primeiro ano longe de jogos oficiais?

É difícil, não é uma barbada, foram 27 anos, que não são 27 meses, nem 27 dias. Apitei nos últimos dez anos todas as competições: Brasileiro, Sul-Americana, Libertadores, todas as finais ou jogos da ponta de cima, então, você sente falta dos principais jogos. Lógico que sinto falta.

Você se preparou para parar? Acha que parou no auge?

Me preparei para parar. Ano passado, eu fiz 31 jogos. A CBF, nesta semana, me entregou um relatório com todos os jogos onde eu tive a média mais alta de todos os árbitros com 9.20. Nesses 31 jogos, eu tive dez notas 10, então, veja bem, é encerrar uma carreira por cima, no auge. Foi um ano que, a meu ver, teve uma Copa do Mundo onde eu, o Altemir (Hausmann) e o (Roberto) Braatz arrebentamos a boca do balão na África. Apitei Inglaterra x EUA, Alemanha x Gana e todos os árbitros, como o Oscar Ruiz (colombiano), diziam para mim: “Você vai fazer a final do campeonato”. Mas, infelizmente, não fizemos por questões que estão a par da arbitragem. No conceito dos árbitros, o trio brasileiro foi o melhor da Copa, isso é um orgulho. Eu sabia que ia largar (a arbitragem), por ter 45 anos de idade, mas encerrei realmente por cima.

A ausência de uma final de Copa do Mundo foi sua grande lacuna na carreira?

Claro, faltou a final. Foram três Copas do Mundo, não tenho nada que me queixar, mas nós nos preparamos bem e estávamos voando. Todo mundo dizia que iríamos apitar e, por surpresa, não apitamos. Mas de qualquer forma encerrei a carreira com o peito aberto e por cima.

O que está fazendo atualmente?

Hoje, estou como Coordenador Executivo da Copa do Mundo pelo governo do estado do Rio Grande do Sul, estou como instrutor de árbitros da FIFA, tenho projeto para 2014, preparação de árbitros e tal e apitando jogos beneficentes. Tenho aproveitado bastante com a família, viajando bastante para o interior, a família está super contente. Tenho recebido muitas homenagens do Estado do Rio Grande do Sul, medalhas, títulos. É um reconhecimento bonito.

Vejo que você anda dando muitos autógrafos e tirando fotos com os torcedores. Isso sempre foi normal ou acontece só agora, depois de ter parado?


Aconteceu muitas vezes. Foto, autógrafo...por onde quer que eu vá, isso rola. É claro, que quando você está apitando, ouve-se uma ou outra piadinha, mas é normal. No último ano em que eu apitei, saía dos estádios, principalmente no Norte e Nordeste e, às vezes, também no Sudeste, com o pessoal dando presentes, cartões e pedindo fotos. Nesse ano que eu parei de apitar, muitas pessoas vêm pedindo um abraço, dizem que faço falta, que torcida por mim, isso é legal, pois estou fora da mídia, só apitando jogos beneficentes. O juiz é valorizado.

Alguém já chegou para você dizendo que quer ser árbitro?


Outro dia, um garoto me disse que queria ser árbitro. Isso é um reconhecimento a um árbitro que participou de três Copas do Mundo, algo que ninguém tinha feito no Brasil, uma carreira bonita, vitoriosa e sempre com respeito. Cometi meus equívocos, mas, com certeza, em 1197 jogos, cometi mais acertos do que erros

Qual foi o jogo mais inesquecível?


Todos os da Copa do Mundo. Foram sete em três copas, é difícil apontar um, além dos 20 clássicos Gre-Nais e das seis finais de Brasileiro.

Mas não digo apenas o mais importante, e sim, aquele que técnica e disciplinarmente você se considerou impecável.

O último Gre-Nal que apitei, no Olímpico, o 2 a 2, a imprensa toda deu nota 10. Os observadores da CBF me deram nota dez. Foi um grande jogo.

E o mais emocionante?


A final do Brasileiro de 2010, Fluminense e Guarani, quando saí ovacionado do Engenhão. Não vou esquecer nunca do estádio todo gritando o meu nome.

E qual foi o jogo para esquecer?

Teve aquele erro que cometi no Maracanã, quarta de final da Copa do Brasil, entre Botafogo e Atlético-MG. Já estávamos aos 92 minutos de jogo e não vi o pênalti, pois tinha um cara na minha frente. Só depois acabei vendo na televisão. Não marquei, pois na hora não achei. É um lance que as pessoas comentam e que ficou marcado. (NR: Era a segunda partida das quartas de final da Copa do Brasil de 2007 e o Botafogo vencia por 2 a 1. Entre o minuto 46 e 47, Tchô, do Galo, recebeu uma bola na área e foi atingido por Juninho, zagueiro do Bota. Caso o Atlético-MG fizesse o gol, se classificaria, pois no primeiro jogo, no Mineirão, o placar havia sido 0 a 0).

O que está achando da arbitragem brasileira?

Está passando por um processo de renovação e por isso, acho que, tem que se apoiar mais, acabar com o sorteio, regulamentar a profissão, porque o árbitro é um abnegado, faz porque gosta mesmo. Torço para os companheiros da arbitragem. Eu soube que o Sálvio Spínola parou de apitar tendo mais dois anos para contribuir e depois de ter vindo de uma final de Copa América. Sair assim da arbitragem é uma perda. Infelizmente, essas coisas acontecem.

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