
Por Camila Alves - São Paulo / GE
– Sicredi débito ou crédito? –
perguntou o árbitro João Vitor Gobi, aos capitães de Água Santa e
Palmeiras, na primeira comercialização do "cara ou coroa" nos jogos
do Paulistão. Uma cena que se repetiu no campeonato e chama a
atenção para o que está em ascensão: os patrocínios na arbitragem.
A publicidade chegou ao uniforme
dos árbitros, às cabines do VAR, dobrou a receita em relação ao ano
passado e rende cerca de R$ 1 milhão à Federação Paulista por cada
espaço utilizado nesta temporada.
Aos árbitros, não há repasse
direto ou contrato de imagem. Só a Smartfit funciona em formato de
permuta, com acesso liberado à academia durante o ano.
Diante do crescimento repentino –
e com o assunto pouco abordado no Brasil –, o ge procurou árbitros e
ex-árbitros, a Federação, intermediários de empresas, e levantou
dados no Ministério Público, Tribunal Superior do Trabalho e no
Senado para mostrar os bastidores dessa história.
A mudança está evidente na
quantidade de marcas. São oito nesta temporada, comercializadas em
pacotes que incluem as 23 competições da FPF e envolvem propriedades
de camisa e conteúdos digitais, como as escalações de arbitragem,
por exemplo.
A Federação não revela valores,
mas somando o custo dos espaços pode se calcular uma média de R$ 8
milhões no "valor da camisa".

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Lançamento do uniforme de arbitragem da
Federação Paulista para 2025 — Foto: FPF |
Ele diz que a receita ganha é
utilizada para custear as pré e intertemporadas dos árbitros e, mais
recentemente, para o Programa Jovens Árbitros.
É uma ação que durante oito meses
pagou bolsas de R$ 2,6 mil por mês a 14 árbitros para dedicação
exclusiva, com treinos de segunda a sexta, plano de saúde, cursos de
inglês e espanhol, psicólogo e nutricionista.
– Fizemos uma pré-temporada com
todo o quadro de arbitragem, levou para o interior, levou o VAR.
Essas receitas ajudam a custear esse tipo de ação. Árbitros não se
concentram, não treinam todos os dias, a comissão faz essas inter
temporadas – disse Itri.
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Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da
FPF, durante a cerimônia — Foto: Foto: Natália Bergonso |
O crescimento não é exceção do
estado de São Paulo. Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports, fez
o acordo de patrocínio da Unisa com a FPF e vê o novo espaço como
tendência, positiva para as marcas e os organizadores dos
campeonatos.


São poucos os que falam do
assunto, especialmente entre aqueles em atividade.
– Minha geração não conversa, só sempre foi assim – confessou um
dos profissionais procurados pela reportagem. O Sindicato dos
Árbitros de São Paulo, em nome do presidente José Aragão, não quis
se pronunciar.
Entre ex-árbitros, o discurso é
mais enfático, principalmente os com histórico de briga por
direitos. Ainda assim é como se a questão dos patrocínios fosse
apenas mais uma entre tantos problemas básicos para a arbitragem.
Marcelo Marçal, árbitro por 12
anos, de 1993 a 2005, largou o ofício ao ver, segundo ele, que sua
posição combativa o impediria de crescer na profissão. Aposentado,
atuou na ANAF, no sindicato dos árbitros e agora escreve sobre
arbitragem no site Apito Nacional.
– Quando entrei, o principal debate eram as taxas de arbitragem.
Era R$ 150, R$ 200. Apitava quase amador, porque em 1996 até as
camisas, meia, o árbitro comprava. Hoje eles fazem o que para eles é
determinado, porque o que querem é estar apitando

- disse Marcelo, que lembra
de ver o primeiro patrocínio com a Lupo em 2010.
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Marcelo Marçal, ex-árbitro da Federação
Federação Paulista, hoje escreve sobre arbitragem — Foto:
Arquivo Pessoal |
Marcio Rezende Freitas, de Minas
Gerais, atuou por 25 anos e escreveu sua tese de pós-graduação sobre
patrocínio. Em vez do recebimento de parte dos valores, ele dá
enfoque a outros dois pontos: o investimento em preparação e a
necessidade de profissionalização.
Faz críticas à ausência de
projetos de formação no Brasil, à falta de mecanismos de treinamento
para além das pré-temporadas e atesta: não há plano a médio ou longo
prazo na arbitragem.
– Sempre falamos que tinha que
reverter para a arbitragem. O árbitro é muito amador, mas cobrado
como profissional. O que é mais fácil no erro? Ouso dizer que não é
feito nenhum trabalho, é apenas uma geladeira para dar satisfação. O
recurso existe. Agora é efetivamente aplicado? Não sei te dizer.
– Muito por culpa dos árbitros
também, porque não tem autonomia, e não querem ter, é cada um
olhando para o próprio umbigo. Há uma cobrança velada (sobre
patrocínio), porque eles ficam com medo e não têm resposta. Dizem "a
gente investe mais". O enredo do samba é o mesmo - afirmou o
ex-árbitro Marcio Rezende Freitas.

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Em 1996, Marcio Rezende é eleito pela
segunda vez o melhor árbitro do Brasil |

A profissionalização não é crítica
exclusiva do ex-árbitro Marcio Rezende, só que as poucas iniciativas
de mudança em larga escala ainda não avançaram.
O Ministério Público do Trabalho,
à reportagem, comenta ter participado de um Grupo de Trabalho no
Senado para propor uma regulamentação sobre o tema.
Trata-se do Projeto de Lei nº 846,
em curso desde 2019, que propõe uma mudança na Lei Pelé para que
árbitros e auxiliares tenham vínculo empregatício com entidades
esportivas. Começou na Comissão do Esporte, está na de Assuntos
Sociais e em seguida irá para a Câmara dos Deputados, sem
necessidade de votação no Plenário do Senado.
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Convidados de audiência no Senado
concordaram quanto à profissionalização da arbitragem —
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado |
O debate, além do MPT, incluiu
CBF, Federações, entidades dos árbitros e representantes, como
Raphael Claus e Daronco.
Houve resistência com alegações de
que algumas Federações não teriam condições de pagar, mas havia
consenso de que os árbitros estão em situação de amadorismo, então
propuseram um modelo de contrato inspirado nos jogadores, com partes
fixa e variável, e prazo temporário, podendo ser de um ano ou seis
meses, por exemplo.
É o que explica Vicente Pithon,
servidor do gabinete do Senador Romário e que coordenou o debate.
– Os árbitros maiores ganham
cachê, só que sem estabilidade para treinar ou quando se lesiona,
por exemplo. Não entrou especificamente em patrocínio, mas quando
propomos o contrato de imagem ele inclui esse direito. Todo time de
futebol repete que tem que profissionalizar o árbitro só que ninguém
quer pagar a conta - afirmou.
Para propor a mudança, estudaram
modelos de outros países. Na Holanda, há vínculo empregatício. Na
Inglaterra, uma empresa terceirizada presta serviço. Em Portugal, é
igual ao Brasil, e outros, como a Espanha, caminham em um modelo
híbrido. Uma tentativa de mudança visando o futuro.

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Capitães de São Paulo e Palmeiras antes
de Choque-Rei no Paulistão - Foto: Marcos Ribolli |
Fonte: GE /SP