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Patrocínio em uniforme de arbitragem rende milhões no Paulistão... Mas e os árbitros?

Receita com publicidade dobra e rende cerca de R$ 1 milhão por área à FPF, que diz usar valores com pré-temporadas e outros programas; ex-juízes criticam falta de profissionalização
    São Paulo - 27/03/2025    09:12hs
Arbitragem antes de partida pelo Paulistão 2025 — Foto: Marcos Ribolli
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Por Camila Alves - São Paulo / GE

– Sicredi débito ou crédito? – perguntou o árbitro João Vitor Gobi, aos capitães de Água Santa e Palmeiras, na primeira comercialização do "cara ou coroa" nos jogos do Paulistão. Uma cena que se repetiu no campeonato e chama a atenção para o que está em ascensão: os patrocínios na arbitragem.

A publicidade chegou ao uniforme dos árbitros, às cabines do VAR, dobrou a receita em relação ao ano passado e rende cerca de R$ 1 milhão à Federação Paulista por cada espaço utilizado nesta temporada.

Aos árbitros, não há repasse direto ou contrato de imagem. Só a Smartfit funciona em formato de permuta, com acesso liberado à academia durante o ano.

Diante do crescimento repentino – e com o assunto pouco abordado no Brasil –, o ge procurou árbitros e ex-árbitros, a Federação, intermediários de empresas, e levantou dados no Ministério Público, Tribunal Superior do Trabalho e no Senado para mostrar os bastidores dessa história.

A mudança está evidente na quantidade de marcas. São oito nesta temporada, comercializadas em pacotes que incluem as 23 competições da FPF e envolvem propriedades de camisa e conteúdos digitais, como as escalações de arbitragem, por exemplo.

A Federação não revela valores, mas somando o custo dos espaços pode se calcular uma média de R$ 8 milhões no "valor da camisa".

Lançamento do uniforme de arbitragem da Federação Paulista para 2025 — Foto: FPF

Ele diz que a receita ganha é utilizada para custear as pré e intertemporadas dos árbitros e, mais recentemente, para o Programa Jovens Árbitros.

É uma ação que durante oito meses pagou bolsas de R$ 2,6 mil por mês a 14 árbitros para dedicação exclusiva, com treinos de segunda a sexta, plano de saúde, cursos de inglês e espanhol, psicólogo e nutricionista.

Fizemos uma pré-temporada com todo o quadro de arbitragem, levou para o interior, levou o VAR. Essas receitas ajudam a custear esse tipo de ação. Árbitros não se concentram, não treinam todos os dias, a comissão faz essas inter temporadas – disse Itri.

Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF, durante a cerimônia — Foto: Foto: Natália Bergonso

O crescimento não é exceção do estado de São Paulo. Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports, fez o acordo de patrocínio da Unisa com a FPF e vê o novo espaço como tendência, positiva para as marcas e os organizadores dos campeonatos.

São poucos os que falam do assunto, especialmente entre aqueles em atividade.

– Minha geração não conversa, só sempre foi assim – confessou um dos profissionais procurados pela reportagem. O Sindicato dos Árbitros de São Paulo, em nome do presidente José Aragão, não quis se pronunciar.

Entre ex-árbitros, o discurso é mais enfático, principalmente os com histórico de briga por direitos. Ainda assim é como se a questão dos patrocínios fosse apenas mais uma entre tantos problemas básicos para a arbitragem.

Marcelo Marçal, árbitro por 12 anos, de 1993 a 2005, largou o ofício ao ver, segundo ele, que sua posição combativa o impediria de crescer na profissão. Aposentado, atuou na ANAF, no sindicato dos árbitros e agora escreve sobre arbitragem no site Apito Nacional.

Quando entrei, o principal debate eram as taxas de arbitragem. Era R$ 150, R$ 200. Apitava quase amador, porque em 1996 até as camisas, meia, o árbitro comprava. Hoje eles fazem o que para eles é determinado, porque o que querem é estar apitando

- disse Marcelo, que lembra de ver o primeiro patrocínio com a Lupo em 2010.

Marcelo Marçal, ex-árbitro da Federação Federação Paulista, hoje escreve sobre arbitragem — Foto: Arquivo Pessoal

Marcio Rezende Freitas, de Minas Gerais, atuou por 25 anos e escreveu sua tese de pós-graduação sobre patrocínio. Em vez do recebimento de parte dos valores, ele dá enfoque a outros dois pontos: o investimento em preparação e a necessidade de profissionalização.

Faz críticas à ausência de projetos de formação no Brasil, à falta de mecanismos de treinamento para além das pré-temporadas e atesta: não há plano a médio ou longo prazo na arbitragem.

Sempre falamos que tinha que reverter para a arbitragem. O árbitro é muito amador, mas cobrado como profissional. O que é mais fácil no erro? Ouso dizer que não é feito nenhum trabalho, é apenas uma geladeira para dar satisfação. O recurso existe. Agora é efetivamente aplicado? Não sei te dizer.

Muito por culpa dos árbitros também, porque não tem autonomia, e não querem ter, é cada um olhando para o próprio umbigo. Há uma cobrança velada (sobre patrocínio), porque eles ficam com medo e não têm resposta. Dizem "a gente investe mais". O enredo do samba é o mesmo - afirmou o ex-árbitro Marcio Rezende Freitas.

Em 1996, Marcio Rezende é eleito pela segunda vez o melhor árbitro do Brasil

A profissionalização não é crítica exclusiva do ex-árbitro Marcio Rezende, só que as poucas iniciativas de mudança em larga escala ainda não avançaram.

O Ministério Público do Trabalho, à reportagem, comenta ter participado de um Grupo de Trabalho no Senado para propor uma regulamentação sobre o tema.

Trata-se do Projeto de Lei nº 846, em curso desde 2019, que propõe uma mudança na Lei Pelé para que árbitros e auxiliares tenham vínculo empregatício com entidades esportivas. Começou na Comissão do Esporte, está na de Assuntos Sociais e em seguida irá para a Câmara dos Deputados, sem necessidade de votação no Plenário do Senado.

Convidados de audiência no Senado concordaram quanto à profissionalização da arbitragem — Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O debate, além do MPT, incluiu CBF, Federações, entidades dos árbitros e representantes, como Raphael Claus e Daronco.

Houve resistência com alegações de que algumas Federações não teriam condições de pagar, mas havia consenso de que os árbitros estão em situação de amadorismo, então propuseram um modelo de contrato inspirado nos jogadores, com partes fixa e variável, e prazo temporário, podendo ser de um ano ou seis meses, por exemplo.

É o que explica Vicente Pithon, servidor do gabinete do Senador Romário e que coordenou o debate.

Os árbitros maiores ganham cachê, só que sem estabilidade para treinar ou quando se lesiona, por exemplo. Não entrou especificamente em patrocínio, mas quando propomos o contrato de imagem ele inclui esse direito. Todo time de futebol repete que tem que profissionalizar o árbitro só que ninguém quer pagar a conta - afirmou.

Para propor a mudança, estudaram modelos de outros países. Na Holanda, há vínculo empregatício. Na Inglaterra, uma empresa terceirizada presta serviço. Em Portugal, é igual ao Brasil, e outros, como a Espanha, caminham em um modelo híbrido. Uma tentativa de mudança visando o futuro.

Capitães de São Paulo e Palmeiras antes de Choque-Rei no Paulistão - Foto: Marcos Ribolli

Fonte: GE /SP

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